Um marujo me acordou na manhã seguinte. Não sabia se havia sido um sonho, ou verdade. Não me importava. A minha noite ensinando e tocando canções com Saphira havia sido uma das melhores experiências da minha vida. Eu ansiava pelo retorno da noite, esperançoso pela promessa de Saphira de retornar para mais aprendizado. Eu já não me importava mais se eram somente aulas, só queria estar com ela novamente. E quando...
- Pare de sonhar acordado sr. Owell!
O capitão do navio me pegara muito pensativo. Acho estava começando a perder o foco. Não parava de pensar na sereia que me encantava. A cada coisa que eu fazia, me lembrava seu rosto, seus olhos, seu sorriso...
- Sr. Owell! Da próxima vez que o vir tão distraído com o trabalho o colocarei para limpar o convés com a língua! Fui claro?
- Sim capitão!
Não pode ser! Será que estou apaixonado por uma criatura marinha? Será isso possível? Talvez ela tenha feito algo comigo e... Oh não! Foco! Não se distraia novamente! Pare de pensar nela! Pare de pensar em sua linda voz. Pare de pensar em como a luz da lua fazia seu rosto ficar tão lindo... Estou fazendo de novo não estou...? Seria melhor me concentrar em tecer a rede... deve ser fácil... pela esquerda, pela direita, por cima e por baixo, novamente direita, esquerda, Saphira e por baixo...
...
...
...
...
Não pensar nela... Inevitável...
Um marujo passou por mim. Era só o Haljanor. Gostava de beber bastante, onde quer que atracávamos. Parte do tempo era rude e a outra estava bêbado. Era um homem de uns cinquenta e poucos anos, barba mal feita, fedia a bebida e parecia não se importar com ninguém a não ser ele mesmo. Desprezível. Ele passou por mim e me encarou com uma expressão de desprezo. Não entendi muito bem. me olhava com a quem olha alguém fazendo algo errado, mas eu já não estava mais tão distraído, não estava mais trabalhando tão pensativo. Talvez ele estivesse embriagado ainda. Desprezível. Deixei ele para lá.
A noite se aproximava. O sol começava a se por. E eu pegava o meu violão para afinar-lhe as cordas. As notas deveriam estar em perfeito estado. Tudo deveria ser o melhor possível. Cantarolei umas duas canções que todos os marujos gostavam de ouvir. Tocava enquanto eles bebiam, apostavam, jogavam cartas... Logo a bebida os fez ficar sonolentos. Pouco a pouco foram indo dormir, cada um eu seu "aposento". O dia havia sido difícil. Conseguimos somente metade do esperado para o dia todo. Talvez outro peixe faminto tenha surgido nessa área e acabado com os nossos peixes. De fato faltava ainda uma semana para voltarmos à nossa terra. Muito peixe ainda podia ser pego em uma semana.
Já estava sozinho no deque do navio. Tomei novamente minha posição da noite anterior. E comecei a cantarolar algumas canções que eu a havia ensinado. Toquei... cantei... nada. Começava a achar que ela não viria mais. Sim. Tudo não passava de um sonho. Que tolo eu havia sido em acreditar que tinha sido real. voltei a fazer o que sabia fazer de melhor. Fechei os olhos e comecei a tocar e a relembrar. Só que no lugar de lembrar de minha infância, acabei por lembrar dos momentos que eu havia passado com Saphira. E comecei a compor uma canção diferente. Existia um toque a mais nela que a diferenciava das outras que eu já havia composto. Como um ingrediente secreto de uma comida. Existia... amor.
Peguei no sono. Nem percebi nada. Acordei desesperado ao perceber meu violão caindo no chão no navio, e acabei por cair no chão também.
"Acho melhor ir dormir." pensei.
Me virei. Me dirigi para meu local de descanso.
- Já vais marinheiro?
Ela? De novo? Se era um sonho ou não, não me importava. Me virei lentamente e lá estava ela... linda como sempre, apoiada na lateral do navio, me olhando com aqueles olhos suplicantes.
- Por favor, não vás.
- Não, eu não vou. Achei que tivestes esquecido de mim e da promessa de teu retorno. - começava a me aproximar dela.
- Não me esqueci. De modo que aqui estou, de volta aonde nos encontramos da última vez.
- Demorastes.
- Demorei... - seu lindo rosto começava a murchar de tristeza.
Me acheguei a ela, acariciei o seu rosto macio.
- Não fiques assim. Só demoraste. Somente issso. Não há com que ficar triste.
Ela olhou em meus olhos e repetiu o meu gesto. Acariciava meu rosto também.
- Passei o dia todo pensando em você... Por que isso está acontecendo comigo? - ela disse. - Fiquei tão ansiosa por este momento. Não sei se estou errando ou se estou doente mas, só agora consegui ficar feliz em todo o dia. Por favor me diga? Há algo errado comigo?
Seus lindos olhos suplicantes eram tão agoniantes de ver que eu fechei os olhos. Os abri novamente a encarei. Uma lágrima escorria de seus olhos. Eu a enxuguei.
- Nada há de errado com você. É só que...
- Que...?
Creio que nada havia para ser dito naquele momento. Foi tão natural como um vento que movimenta as folhas de uma árvore, fazendo algumas caírem. Nossos rostos se aproximando. Cada vez mais perto. Cada vez mais devagar. Cada vez menos lógico. Cada vez... O toque dos lábios, o encontro dos mesmos, e os seguintes reencontros... Seus lãbios... tão doces quanto o mel, ainda que vivesse no mar... Seu cheiro... como flores do campo, ainda que vivesse debaixo d'água. E eu me perdia mais e mais naquele beijo. Eu ia sumindo enquanto alguma coisa ou outro alguém começava a se consumar naquele momento.
- Agora!
Uma rede havia sido lançada sobre nós. Os marinheiros do navio. Oh não o que eu fui fazer? Condenei esta linda sereia a cair nas mãos de pescadores. Ela foi facilmente capturada. Se debatia, soltava ruídos, mas acabou sendo erguida dentro da rede e amarrada ao mastro. Eu tentei impedir, briguei com uns, implorei para outros, mas no fim Haljanor me acerta com uma garrafa. Antes de desmaiar ainda o ouvi dizendo:
- Devia nos agradecer por salvar a sua vida garoto.
Tudo culpa minha...
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